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O Mito da Passividade: paiN Kami sob a lupa

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Publicado originalmente em #vempralane

Se eu perguntasse para vocês quais a característica mais marcante do mid laner que está representando o Brasil neste mundial, a maioria de vocês provavelmente responderia uma combinação entre ‘farm alto’, ‘passividade’ e seus sinônimos. Mas, será o Kami realmente passivo? Será sua presença em lane tão facilmente desconsiderada que podemos simplesmente categorizá-lo como um mid laner passivo e passar adiante, sabendo que ele não exercerá pressão constante?

Vamos olhar os números e, como todo estripador sabe, ir por partes.

1. Passividade percebida

League of Legends é, por natureza, um jogo de alta movimentação, agilidade mental e ação propriamente dita. Com jogadores como Faker, Pawn, xPeke e inúmeros outros, estrangeiros e nacionais, demonstrando jogadas de pura adrenalina e raciocínio rápido, provando a superioridade mecânica em relação ao oponente, é fácil nos esquecermos que boa parte de uma partida pode ser resumida em três palavras: espera por oportunidade.

Ao passar dos anos, é mais e mais raro vermos mid laners criando oportunidades para si mesmos. Não apenas o meta afastou-se de assassinos e do favorecimento de snowball, os jogadores em si passaram a ter maior domínio sobre os diversos match-ups e capacidades de cada campeão. Isto significa que, simultaneamente, campeões que prosperam em ambientes caóticos, capazes de criar – e, até mesmo, forçar – oportunidades caíram em desuso e os jogadores passaram a ter um entendimento mais amplo do jogo. Em outras, e poucas, palavras: não é mais costumeiro ação solo nos inícios de uma partida. A maioria dos times bem sucedidos dependem de seu jungler ou suporte, ou ambos, para criar jogadas em mid lane e, raramente, é o mid laner responsável por um abate sozinho.

Isto significa que, automaticamente, mid lane passou a simbolizar o marasmo mais puro e simples? Se você acompanha o vempralane há algum tempo, deve saber que a maioria das vezes que eu faço uma pergunta é para depois dizer, categoricamente, não. A maneira com que se aborda a agressividade mudou, mas não foi excluída da natureza do jogo. O que antes era lar para grandiosas demonstrações de habilidade, agora é o humilde casebre da manutenção de atrito e desconforto; um leve bailar que visa desestabelecer o oponente.

Não há que se falar, pois, em passividade total, mas, sim, passividade percebida pelo espectador. É óbvio que para quem assiste à distância o controle de lane pode ser considerado passividade, mas os números demonstram outras verdades.

2. Realidade numérica

Vamos deixar algo extremamente claro: a maneira que Kami joga é metódica, lenta e, para os espectadores, pode ser até tediosa. Porém, não é passiva, em nenhuma definição aplicável da palavra. Ele não fica, reiteradamente, sob a própria torre em detrimento da movimentação do oponente e, embora peque no quesito chip damage [estabelecer domínio sobre a lane através do lento derrubar da torre], foram poucas as vezes em que deixou-se ficar em uma posição desigual em relação ao inimigo. Isto dito, vejamos alguns números que podem esclarecer o conceito. Na tabela abaixo, podemos ver, durante a temporada regular da 2a Etapa do CBLoL 2015, a média da performance de Kami contra os times listados:


Em um primeiro momento, eu gostaria que vocês ignorassem os números relacionados aos abates, assistências e mortes, e focassem na discrepância de creep score aos quinze minutos de uma partida. Lembrem-se que estes valores são a média – soma do total dividido pelo número de partidas – e que, por isto, alguns resultados elevados [como a diferença de +38cs aos quinze minutos na primeira partida contra a G3x] acabam por perder um pouco do seu valor bruto. Não obstante, podemos tirar certas conclusões sobre o acima exposto:

Diferente do que se esperaria de um jogador passivo – um jogador que, para todos os efeitos, está feliz em conceder vantagens ao oponente e aguardar -, Kami raramente deixou-se ficar atrás em quantia de minions farmados. De fato, ele ditou o rítmo da lane, empurrando e assegurando uma quantia maior de farm que seu oponente, em 85% das partidas. Apenas a Keyd Stars foi capaz de retardar Kami o suficiente para resultar em uma perda total de minions/minuto aos quinze minutos da partida. Ainda assim, tais resultados deram-se em apenas uma das duas partidas da fase de grupos do CBLoL, mas a diferença foi tão incrível que afetou toda a média.

Munidos de tal conhecimento, creio ser nítida a agressão de atrito que o Kami exerce durante a fase de lane. Entretanto, creio que devo enaltecer esta qualidade. Afinal, este é um artigo analítico. Gostaria que você, caro leitor, tomasse alguns breves instantes para responder a seguinte questão: quais as maneiras de se adiantar em creep score em relação ao seu oponente?

Várias respostas devem ter cruzado a sua cabeça, desde ‘matar o inimigo’ a ‘pedir ajuda do jungler’, mas imagino eu que as suavidades da fase de lane não tiveram maior peso em seu raciocínio. Há mais de uma maneira de se cortar o bife e, enquanto o Kami raramente mata seu oponente ou ajuda seu time antes dos quinze minutos de uma partida, algo que ele faz muitíssimo bem é pressionar a lane, embora ainda haja brechas no seu estilo de jogo. Este tipo de agressão sutil, que visa estabelecer o controle do ir-e-vir da lane, é um dos conceitos basilares do jogo.

É dizer, passividade não gera vantagens, mas posicionamento agressivo e boa visão, sim. Utilizando um exemplo específico, nos jogos que o Kami jogou de Vladimir, ele posicionou-se de maneira agressiva nos primeiros níveis, colocando-se entre os minions inimigos e o oponente, às vezes, para negar CS ou adquirir vantagem territorial.

Acima mencionei que a maneira com que o Kami conduz a fase de lane possui brechas e, tenho certeza, os mais astutos devem estar cientes de que a presença vertical do mid laner da paiN é um tanto quanto deficiente. O impacto vertical do Kami – efetivamente, o sucesso x a frequência de roaming – é extremamente baixo, ao mesmo tempo em que ele às vezes opta por prolongar a estadia na lane, não punindo o oponente com chip damage suficiente. Não seria um artigo do vempralane, afinal, se eu não apontasse os defeitos em conjunto às boas qualidades.

Passemos a lidar, pois, com os valores obtidos dos playoffs: quartas de finais, semi-finais e a grande final, em si. A tabela abaixo, similar à de cima, mostra os valores médios para a diferença entre creep score aos quinze minutos, o número de abates, assistências e mortes aos quinze minutos e os totais da partida [partida, aqui, considera-se o total do embate melhor de três ou melhor de cinco].

Aqui temos valores mais conservativos de discrepância em relação ao diferencial de creep score, tanto em virtude do maior envolvimento do Kami nos embates de seu time pré-quinze minutos de partida, tanto pela escolha de campeões na maioria dos jogos. Com uma predileção maior por magos de controle ou utilidade durante esta última fase do CBLoL, é natural que tenhamos números menores nas estatísticas. Porém, agora sim, gostaria de chamar a atenção de vocês, astutos leitores, para o número total de abates, assistências e mortes.

Percebam que a média de KDA total não ficou incrivelmente acima ou abaixo, quando comparada ao desempenho durante a fase de grupos. Ainda que o número de partidas durante a fase de playoffs seja menor – 14 partidas na fase de grupos vs. 8 partidas nos playoffs -, a diferença no desempenho encontra-se no que eu chamaria de margem de erro. Isto é, Kami desempenhou o seu papel tão bem quanto na fase de grupos, em média, para possibilitar as vitórias da paiN Gaming. Abaixo temos uma outra tabela que melhor esclarecer o que os números brutos revelam:

Como podem ver, Kami participou, em média, de 77% dos abates totais de seu time. Uma participação em abates ligeiramente maior que a do mid laner para Team Solo Mid – historicamente centrado em mid, como o nome indica -, Bjergsen, durante a fase de grupos do split de Verão da LCS Norte-América. Por mais que seus fãs e, até mesmo ele próprio e seus companheiros de time, o categorizem como um jogador passivo, os números revelam a verdade: Kami participa de, ao menos, três quartos dos abates de seu time, rotineiramente consegue uma vantagem em creep score aos quinze minutos de uma partida e, o melhor, faz tudo isso sem exigir demasiada atenção do jungler.

3. Conclusão

É importante realçar que, diferente de Bjergsen, o Kami é praticamente sozinho em mid, na maioria das partidas. Isto libera a movimentação do SirT para auxiliar Mylon e a bot lane. Boa parte do possível sucesso da paiN Gaming neste mundial, além de uma necessidade palpável de seus jogadores jogarem além do seu potencial demonstrado contra os oponentes preferidos, como KOO Tigers, será oferecer suporte o suficiente para as laterais do mapa, ao menos sob a minha perspectiva.

Até mais e até a próxima.

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Sobre Ivory

Editor e contribuinte primário do #vempralane - Bacharel em Direito

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