segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
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SemLag

O Pássaro e o Galho

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“Aquele seu poder serve para destruir. Você não quer usá-lo? Ótimo. Que ele te afunde como uma pedra.”

Essas foram as últimas palavras que Taliyah ouviu do capitão noxiano antes de fugir por baixo da água salgada, palavras que ainda a assombram. Quatro dias se passaram desde que ela chegou à praia onde ela escapou. Primeiro ela correu, e então, quando não conseguia mais ouvir o quebrar de ossos dos fazendeiros ionianos e dos soldados noxianos, ela passou a andar. Ela seguiu a margem das montanhas, sem ousar olhar para o massacre que deixou para trás. A neve começou a cair há dois dias. Ou talvez fossem três; ela não conseguia lembrar. Esta manhã, quando passava por um santuário vazio, um ar melancólico se espalhou pelo vale. Agora, o vento ficava mais forte e passava pelas nuvens para revelar um céu limpo e de um azul tão puro, que ela teve a sensação de estar afogando novamente. Ela conhecia aquele céu. Quando era uma jovem criança, ela o viu cobrir as areias. Mas isso não era Shurima. O vento aqui não era acolhedor.

Taliyah se abraçou, tentando lembrar do calor de seu lar. Seu casaco a protegeu da neve, mas o ar frio ainda conseguia passar. A solidão invisível a envolveu como uma serpente, penetrando seus ossos profundamente. A memória de que ela estava tão longe de seus entes queridos agora a deixara de joelhos.

Ela enfiou as mãos nos bolsos com seus dedos trêmulos, esfregando pedras desgastadas em busca de aquecimento.

“Estou com fome. É esse o problema”, Taliyah disse para ninguém e para todos. “Uma lebre. Um passarinho. Grande Tecelã, eu até mesmo aceitaria um rato caso ele aparecesse”.

Como se por ordem superior, um pequeno punhado de neve em pó fez um barulho a alguns passos de distância. O culpado, um bichinho cinzento e peludo do tamanho de seus punhos, apareceu de uma toca.

“Obrigada”, ela sussurrou entre seus dentes. “Obrigada. Obrigada”.

O animal olhou curioso para Taliyah enquanto a jovem retirava uma das pedras lisas de seu bolso e a colocava na malha de couro de sua funda. Ela não estava acostumada a arremessar de joelhos, mas se a Grande Tecelã lhe deu esta oferenda, ela não a desperdiçaria.

O pequeno animal continuou a assistir enquanto ela puxou a funda uma vez, preparando a pequena pedra. O frio tomou conta do corpo de Taliyah e deixou seu braço frouxo. Quando ganhou velocidade o suficiente, ela soltou a pedra e, infelizmente, um espirro forte.

A pedra quicou na neve, errando por pouco sua sonhada refeição. Taliyah caiu para trás com o enorme peso da fustração demonstrado em um som gutural que ecoou no silêncio ao seu redor. Ela respirou profundamente enquanto o frio queimava sua garganta.

“Presumindo que você se pareça mesmo que um pouco com coelhos da areia, se há um de você, provavelmente tem uma dúzia a mais por perto”, ela disse para o local onde o animal estava com seu otimismo desafiador voltando.

Seu olhar levantou-se da toca para uma movimentação lá embaixo no vale. Ela seguiu suas trilhas tortuosas pela neve. Depois delas, pelos pinheiros esparsos, ela viu um homem no santuário e sua respiração acirrou. Ele estava sentado. Seu cabelo selvagem e negro era embaraçado pelo vento e sua cabeça estava encostada no peito. Ou ele estava dormindo, ou meditando. Ela soltou um suspiro de alívio. Nenhum noxiano que ela conhecera seria pego fazendo algo assim. Ela se lembrou da superfície áspera do santuário que sentiu antes ao passar suas mãos pelas bordas rudimentares.

Os devaneios de Taliya foram abalados por um som de rachadura. Então um barulho estrondoso começou a se formar. Ela ficou parada esperando o terremoto que não veio. O barulho tornou-se um terrível som de neve compacta passando sobre a pedra. Taliyah virou-se para enfrentar a montanha e viu uma parede branca vindo na direção dela.

Ela levantou-se rapidamente, mas não havia para onde fugir. Ela olhou para a rocha penetrando o gelo sujo e pensou no animalzinho que estava seguro em sua toca. Desperadamente, ela se concentrou, puxando as margens das rochas visíveis. Uma fileira de colunas grossas brotou do chão. Uma barreira de pedras levantou-se muito acima de sua cabeça bem à tempo da avalanche branca chegar e bater nela com um estrondo fofo.

A neve logo encheu os arredores do declive recém-formado e vazou como uma onda brilhante no vale abaixo. Taliyah assistiu enquanto a manta mortal enchia o pequeno vale profundo, cobrindo o templo.

Tão rapidamente quanto começou, a avalanche teve seu fim. Até mesmo o vento solitário parou. O novo silêncio abafado pesava muito sobre ela. O homem dos cabelos selvagens e negros se fora, sepultado em algum lugar sob todo aquele gelo e pedras. Ela estava segura, mas seu estômago revirou com uma conclusão terrível: ela não só feriu um inocente desavisado, ela o enterrara vivo.

“Grande Tecelã”, Taliyah disse para ninguém e para todos, “o que foi que eu fiz?”

Taliyah começou a descer a colina coberta por neve, derrapando em alguns lugares e mergulhando até a cintura em outros. Ela não fugiu de uma fragata de invasão noxiana para matar acidentalmente o primeiro ioniano que encontrou.

“E conhecendo minha sorte, provavelmente era um homem santo”, ela disse.

Os pinheiros no vale foram reduzidos a moitas com a metade de seu tamanho original. Apenas a ponta do santuário apareceu sobre a superfície da neve. Uma série de bandeiras de reza rasgadas se contorciam em nós, marcando o que costumava ser o fim do vale. Taliyah olhou a área, buscando por qualquer traço do homem que ela enterrou no gelo. Ela o havia visto por último sob a marquise do templo. Talvez ele tenha encoberto o homem.

Enquanto ia a caminho do templo, mais próxima das árvores e longe da devastação da avalanche, ela viu dois dedos surgindo à superfície.

Rápida, porém desajeitadamente, ela correu para os dedos pálidos. “Por favor, não esteja morto. Por favor, não esteja morto. Por favor…”

Taliyah ficou cuidadosamente de joelhos e começou a cavar a neve. Ela descobriu dedos fortes como aço. Ela agarrou o pulso do homem, suas mãos trêmulas mal a obedeciam. Seus dentes rangiam, tremendo seu corpo e afogando qualquer pulsação de vida que ela tenha sentido no homem.

“Se você já não estiver morto”, ela disse ao homem abaixo da neve, “você precisa me ajudar”.

Ela olhou ao redor. Não havia mais ninguém. Ela era tudo o que restava para ele.

Taliyah soltou os dedos e se afastou alguns passos. Ela colocou as palmas dormentes na superfície da neve e tentou lembrar como era o chão do vale antes da avalanche. Pedras soltas, cascalho. A memória apareceu, e então encheu sua mente. Era um cascalho escuro e grosseiro, cinza com partes brancas, como a barba do tio Adnan.

Taliyah concentrou-se na visão e a puxou do fundo da neve. Uma crosta de gelo emergiu perante ela, rapidamente seguida por uma faixa de granito com uma figura solitária. A pedra repentinamente flexível balançava como se estivesse esperando ordens. Incerta de uma aterrisagem segura, Taliyah os levou para os pinheiros , esperando que os galhos aparassem sua queda.

A faixa de granito desabou, caindo na neve com um som fofo, mas os braços verdes das plantas seguraram o homem antes de derrubá-lo na superfície.

“Se você estava vivo, por favor, não esteja morto agora”, Taliyah disse enquanto corria na direção dele. A luz do sol fraquejava sobre ela. Nuvens negras estavam indo na direção do vale. Mais neve logo cairia sobre eles. Além das árvores, ela viu uma abertura para uma pequena caverna.

Taliyah deu um sopro quente em suas mãos, desejando que elas parassem de tremer. Ela se curvou próxima ao homem, tentando tocar seu ombro. Ele deixou escapar um grunhido doloroso. Antes que Taliyah pudesse se afastar, houve uma brisa rápida e um lampejo metálico. O fio afiado e frio da lâmina do homem pressionou sua garganta.

“Ainda não é hora de morrer”, ele disse em um sussurro quebrado. Ele tossiu e seus olhos rolaram para trás. Sua espada caiu na neve, mas o homem não soltou a arma.

O primeiro floco de neve esvoaçou pelo rosto rachado de Taliyah. “Ao que parece, você é bem difícil de matar”, ela disse. “Mas se formos pegos nesta tempestade, provavelmente vamos descobrir se isso é verdade”.

A respiração do homem estava fraca, mas ao menos ele ainda estava vivo. Taliyah segurou o braço do homem e o arrastou para a pequena caverna.

O vento solitário retornara.

Taliyah curvou-se para pegar uma pedra arredondada do tamanho e cor de um novelo de lã crua. Ela tremeu e olhou para a caverna às suas costas; o homem esfarrapado estava de olhos fechados, apoiado contra a parede. Ela colocou um pouco da carne seca que encontrou na bolsa do homem na boca, esperando que ele não relutasse em dividir caso vivesse.

Ela voltou para o calor do interior da caverna. As placas de pedra que ela empilhou ainda brilhavam com um calor oscilante. Ela ajoelhou. Taliyah não estava certa se seu truque de aquecer as pedras nos bolsos funcionaria com algo maior. A pequena shurimane fechou os olhos e se concentrou nas pedras. Ela se lembrou do sol brilhante nas areias. A maneira como o calor era mantido sob a terra mesmo à noite. Ela relaxou e afrouxou o casaco enquanto o calor seco se instalava ao seu redor, e então começou a trabalhar com a pedra em suas mãos. Ela a virou, embrulhando-a e empurrando-a com seus pensamentos até que a pedra ficasse oca como uma tigela. Satisfeita, ela voltou para a abertura da caverna com sua louça recém-formada.

Uma voz masculina grunhiu atrás dela: “como um pardal juntando migalhas”.

“Até os pardais têm sede”, ela retrucou, enchendo a tigela com neve limpa. O vento frio sussurrou ao seu redor. Taliyah colocou a pedra arredondada sobre a pilha de pedras quentes à sua frente.

“Você junta pedras com as mãos? Isso parece tedioso para alguém que consegue tecer pedras”.

Um calor veio às bochechas de Taliyah que não tinha nada a ver com a pequena lareira de pedras.

“Você não está bravo, está? Quer dizer, a respeito da neve e da––”

O homem riu e se aninhou para o lado com um grunhido. “Suas ações dizem tudo o que preciso saber”. Seus dentes rangeram, ainda mantendo um esboço de sorriso. “Você poderia ter me deixado morrer”.

“Foi um erro meu que o colocou em perigo. Eu não o deixaria enterrado na neve”.

“Agradeço. Mas eu não precisava da queda por entre as árvores”.

Taliyah fez uma careta e abriu a boca. O homem levantou a mão para fazê-la parar. “Não se desculpe”.

Ele ficou em pé com esforço, olhando Taliyah e o ornamento em seu cabelo mais de perto.

“Um pardal shurimane”. Ele fechou os olhos e relaxou no calor da lareira de pedras. “Você está muito longe de casa, passarinho. O que a traz a uma caverna tão remota em Ionia?”

“Noxus”.

O homem levantou a sobrancelha mas manteve os olhos fechados.

“Eles disseram que eu uniria pessoas em Noxus. Que meu poder fortaleceria suas muralhas. Mas eles só queriam que eu destruisse”. A voz da garota engrossou de desgosto. “Eles disseram que me ensinariam––”

“Eles ensinaram, mas apenas metade da lição”, ele disse sem emoção.

“Eles queriam que eu enterrasse um vilarejo. Que eu matasse pessoas em suas casas”. Taliyah bufou de forma impaciente. “E eu escapei para acabar derrubando a montanha sobre você”.

O homem levantou a espada e fitou a extensão da lâmina. Uma pequena brisa a limpou da poeira. “Destruição. Criação. Nenhum é inteiramente bom ou ruim. Você não pode ter um sem o outro. O que importa é a intenção, o “por que” de escolher seu caminho. Essa é a única escolha verdadeira que temos”.

Taliyah levantou, irritada com o sermão. “Meu caminho é longe deste lugar. Longe de todos, até que eu aprenda a controlar o que está dentro de mim. Não confio que eu não vá machucar meu povo”.

“A confiança de um pássaro não está no galho abaixo dele”.

Taliyah parou de ouvir. Ela já estava na boca da caverna, embrulhando-se firmemente no casaco ao seu redor. O vento assobiava em seus ouvidos.

“Vou tentar encontrar algo para comermos. Espero não trazer o resto da montanha abaixo sobre você”.

O homem se instalou contra a pedra quente às suas costas, falando calmamente para ninguém e para todos. “Tem certeza de que é a montanha que você deseja conquistar, Pequena Pardal?”

Um pássaro bicou um pinheiro fino próximo. Taliyah chutou a neve, acidentalmente jogando um pouco dela em sua bota. Ela puxou a bainha, incomodada com as palavras do homem e com o gelo que derretia acima de seu tornozelo.

“O por que do caminho? Deixei meu povo, minha família, para protegê-los de mim”.

Ela parou. Um silêncio anormal se instalou. Qualquer coisa que estivera próxima já se fora com o som de seus pisões fortes. Sem sentir qualquer perigo vindo da garota, o pequeno pássaro continuou em seu galho e cantou para os devaneios nervosos dela. Agora até a cantoria havia parado.

Taliyah posicionou-se com cuidado. Em sua raiva, ela se distanciou mais do que queria da caverna. Ela era mais atraída pela pedra do que pela madeira, e seguiu despreocupadamente um cume exposto, até se encontrar olhando para um despenhadeiro rochoso. Ela não achou que o homem a seguiria, mas ainda assim, sentiu que algo a vigiava.

“Mais sermões?”, ela perguntou, indignada.

Houve uma exalação de vibrar os ossos em resposta.

Ela deslizou uma mão para o casaco e a outra pegou a funda. Três pedras rolavam em seu bolso. Ela preparou uma enquanto o cascalho solto traiu o movimento de seu espreitar atrás dela.

Taliyah virou-se para enfrentar a presença às suas costas. Ali, caminhando cuidadosamente ao redor do rochedo afiado, estava um grande leão das neves ioniano.

Mesmo ficando em quatro patas, ele era mais alto que ela. A fera tinha facilmente o dobro do comprimento da altura dela, e seu pescoço grosso era coberto por uma pequena juba branca. O leão observava a garota. Ele largou duas lebres recém-abatidas de suas garras e lambeu um respingo vermelho de seu canino, maior que o antebraço da garota.

Um momento atrás, a vista do desfiladeiro onde ela estava fora excitante. Agora, a deixara presa. Se ela corresse, ela seria perseguida em um instante. Taliyah engoliu seco, tentando empurrar o pânico crescente garganta abaixo. Ela colocou uma pedra na funda e começou a girá-la.

“Saia daqui”, ela disse. Suas palavras saíram sem o terror que ela sentia por dentro.

O leão deu um passo mais para perto. A garota soltou a pedra de sua funda. Ela acertou a grande fera próximo à juba, sendo que os pelos absorveram a maior parte do impacto. O animal grunhiu em desgosto, e Taliyah não conseguia separar o som forte de seu próprio coração enquanto ele tentava sair de seu peito.

Ela colocou outra pedra na funda.

“Continue andando!”, ela gritou, fingindo ter mais coragem. “Eu mandei você sair daqui!”

Taliyah deixou a próxima pedra voar.

O rosnar faminto do predador ficou mais alto. O pássaro no pinheiro fino, sentindo que nada de bom sairia desse encontro, saltou do galho e voou em uma corrente de ar.

Sozinha, Taliyah colocou a mão no bolso para retirar sua última pedra. Suas mãos tremiam do frio e do medo que tomavam conta dela. A pedra escapou de seus dedos e atingiu o chão, rolando para longe. Ela olhou para cima. A cabeça do leão sacudiu entre seus ombros musculosos enquanto ele dava outro passo na direção dela. A pedra de arremesso não estava ao alcance da garota.

“Você junta pedras com as mãos? As palavras do homem ecoaram na mente dela. Talvez houvesse outra saída. Taliyah tentou pegar a pedra usando sua vontade. A pedrinha tremeu, mas também havia uma leve tremor no chão sob ela.

O ramo atrás dela ainda tremia de quando o pássaro levantou voo. A confiança de um pássaro não está no galho. A escolha era clara: Ela poderia continuar congelada em dúvida, deixando a fera vir para cima, ou usar seu poder e dar este salto.

Taliyah, a garota nascida na terra desértica muito além das encostas nevadas de Ionia, concentrou-se na imagem do pássaro e no galho vazio que balançava. Naquele momento, ela esqueceu a morte iminente à sua frente. A solidão que a perseguia fugiu e foi substituída por sua última dança nas areias. Ela sentiu sua mãe, seu pai, Babajan–a tribo toda circulando-a. Sua promessa sussurrada de voltar para eles quando ela finalmente dominasse suas dádivas.

Ela encontrou o olhar da fera. “Desisti de muita coisa para permitir que você me impeça”.

A pedra começou a se contorcer abaixo dela em uma crescente graciosa. Ela se apoiou no calor daquele último abraço e saltou.

Um retumbar cresceu abaixo dela, mais alto que o rugir da fera. O leão tentou se afastar, mas já era tarde demais. O chão se dividiu abaixo de suas patas em uma eclusa de cascalho rodopiante, com o peso da criatura levando-o cada vez mais para baixo no penhasco desabante.

Por um breve momento, Taliyah flutuou sobre o turbilhão de terra que dissolvia. A rocha sob ela continuou a lascar em milhares de pedacinhos que não eram mais sólidos o suficiente para serem controlados. Ela sabia que não conseguiria segurar aquela destruição para sempre. A garota começou a cair. Antes que ela pudesse dizer adeus ao mundo grosseiro que se quebrava ao seu redor, um vento forte a levantou. Dedos que pareciam ser de aço seguraram o colarinho de seu casaco.

“Não percebi que você estava falando sério quando falou em trazer a montanha abaixo, Pequena Pardal”. Com um grunhido, o homem puxou Taliyah para a borda recém-criada. “Agora entendo por que muito de seu deserto é plano”.

Uma risada borbulhou de dentro dela. Ela estava realmente aliviada em ouvir a voz condescendente dele. Taliyah olhou para o lado do desfiladeiro e levantou-se. Ela bateu a poeira do corpo, pegou as lebres descartadas do leão e andou de volta para a pequena caverna com um ânimo renovado em seus passos.

Taliyah mordeu seu lábio inferior. Ela olhou ao redor da taverna, saltando feliz em sua cadeira. Era tarde da noite e as mesas de madeira estavam esparsamente populadas. Havia tanto tempo desde que ela esteve próxima às pessoas. Ela olhou para seu companheiro de expressão amarga, que insistiu em ficar na cabine escura do canto. O homem que agora era seu professor não contava. A carranca que ele ostentava desde que concordou em comer naquela taverna remota oferecia pouca camaradagem.

Quando estava claro que ele era tão estranho aqui quanto todo mundo, ele relaxou um pouco e se instalou nas sombras com as costas firmemente apoiadas contra a parede enquanto ele segurava uma bebida. Agora ele não estava distraído, sua concentração e olhos atentos se voltaram a ela.

“Você precisa se concentrar”, ele disse. “Você não pode hesitar”.

Taliyah estudou as folhas girando no fundo de sua caneca. A lição hoje fora difícil. Ela não foi bem. No fim, eles estavam cobertos com poeira e pedras estilhaçadas.

“O perigo chega quando sua atenção está dividida”, ele disse.

“Eu poderia machucar alguém”, ela disse, olhando para o novo rasgo no manto ao redor do pescoço do homem. Suas próprias roupas também não estavam nas melhores condições. Ela olhou para seu novo casaco e saia de viagem. A esposa do estalajadeiro ficou com pena e lhe ofereceu o que tinha ali, roupas descartadas por algum cliente anterior. Ela precisaria de um tempo para se acostumar com as mangas longas no estilo ioniano, mas o rico tecido era robusto e bem costurado. Ela manteve sua túnica simples, desgastada de tanto uso, determinada a não se desfazer do pouco de casa que ela ainda carregava.

“Nada foi quebrado que não possa ser consertado. O controle vem através de prática. Você é capaz de muito mais. Lembre-se, você melhorou”.

“Mas… E se eu falhar?”, ela perguntou.

O olhar do homem se virou depois que ele viu a porta da taverna ser aberta. Um par de mercadores entrou, batendo a poeira da estrada. O estalajadeiro apontou para as mesas vazias perto de Taliyah e do homem. O primeiro foi até elas enquanto o segundo esperava sua bebida.

“Todos falham”, o companheiro de Taliyah disse. Uma pequena ponta de frustração passou pelo rosto do homem, manchando sua atitude contida. “A falha é só um momento no tempo. Você precisa continuar em frente, e isso passará também”.

Um dos mercadores sentou em uma mesa próxima e começou a encarar Taliyah, seus olhos brilharam com a alfazema pálida de sua túnica ao brilho de ouro e das pedras em seu cabelo.

“Isso é shurimane, garota?”

Taliyah fez seu melhor para ignorar o mercador. Ele viu o olhar protetor do companheiro dela e riu.

“Isso teria sido raro um dia”, disse o mercador.

A garota encarou as próprias mãos.

“É um pouco mais comum agora que a cidade perdida de seu povo ressurgiu”.

Taliyah olhou para cima. “Quê?”

“Dizem por aí que os rios correm no sentido contrário também”. O mercador balançou a mão no ar, tirando sarro dos mistérios de um povo distante que ele considerava simples. “Tudo porque seu deus-pássaro voltou do túmulo”.

“Seja lá o que ele for, não faz diferença. Tudo ameaça o comércio”. O segundo mercador juntou-se ao primeiro. “Eles dizem que ele quer reunir seu povo. Sente falta de seus escravos e coisas assim”.

“Ainda bem que você está aqui e não lá, garota”, o primeiro mercador adicionou.

O segundo mercador desviou os olhos de sua bebida, repentinamente notando o companheiro de Taliyah. “Você me parece familiar”, ele disse. “Já vi seu rosto antes”.

A porta da taverna abriu novamente. Um grupo de guardas entrou, observando a sala atentamente. O do meio, claramente um capitão de algum tipo, notou a garota e seu companheiro. Taliyah podia sentir um pânico silencioso crescer na sala à medida que alguns hóspedes levantaram e se dirigiram rapidamente à saída. Até mesmo os mercadores levantaram e se foram.

O capitão caminhou entre os banquinhos vazios na direção deles. Ele parou a uma espada de distância da mesa onde eles sentavam.

“Assassino”, ele disse.

“Então era aqui que você estava escondido”, o capitão disse. “Saboreie esta bebida. Ela será a última”.

Taliyah ficou de pé assim que ouviu o sussurro do saque de aço próximo dela. Ela observou para ver seu professor encarando a sala cheia de guardas.

“Este homem, Yasuo”–o capitão cuspiu a palavra–”é culpado do assassinato de um ancião do vilarejo. A punição por seu crime é a morte. Que deve ser executada imediatamente ao encontrá-lo”.

Um dos guardas levantou uma besta carregada. Outro sacou uma flecha em um arco longo, quase tão alto quanto a garota.

“Me matar?” , disse Yasuo. “Vocês podem tentar”.

“Esperem”, Taliyah gritou. Mas antes que a palavra deixasse seus lábios completamente, ela ouviu o estalo do gatilho e o zumbido da liberação da flecha no arco. Nos momentos que seguiram, uma rajada rodopiante entrou na taverna. Ela saiu do homem ao lado da garota, assoprando copos abandonados e mesas de madeira. Ela alcançou as flechas, quebrando-as em pleno voo. Os pedaços caíram no chão com um tinido oco.

Mais guardas entraram com espadas sacadas de suas bainhas. Taliyah preparou um campo de pedras afiadas, puxando cada rocha pelo chão em uma explosão violenta para manter os homens à distância.

Yasuo passou pela multidão de soldados presos na sala. Eles brandiram suas armas, tolamente tentando rebater a espada que passava por eles com o metal fazendo um arco eletrizante como raios. Era tarde demais. A lâmina de Yasuo entrou e saiu dos homens, deixando rasgos letais de vermelho em um redemoinho atrás dele. Quando todos aqueles que enfrentaram o homem finalmente caíram, Yasuo parou, sua respiração estava pesada e feroz. Seu olhar encontrou o da garota e ele se preparou para falar.

Taliyah levantou a mão para avisar. Ali, nas costas dele, levantou o capitão com olhos histéricos e um sorriso quebrado. Ele empunhava sua espada com as duas mãos para conseguir segurar o pomo cheio de sangue.

“Afaste-se dele!” Taliyah fez um esforço de puxão no chão pavimentado da taverna, as pedras planas irromperam e levantaram o capitão no ar.

Enquanto o corpo do capitão era arremessado para cima, Yasuo estava lá para ir encontro a ele, fazendo com que sua lâmina fria cortasse o peito do capitão em três golpes rápidos. O corpo caiu no chão e ficou imóvel.

Mais gritaria vinha de fora. “Precisamos ir. Já”, disse Yasuo. Ele olhou para a garota. “Você consegue. Não hesite”.

Taliyah concordou com a cabeça. O chão ruiu, chacoalhando as paredes até o teto começar a vibrar. A garota tentou conter o poder que sentiu crescendo debaixo do chão da taverna. Uma visão passou em sua mente. Sua mãe, costurando um pedaço de tecido, cantando para ela mesma, com os pontos de costura saindo de sua mão, seus dedos eram um borrão de movimento.

A pedra abaixo da taverna explode em grandes arcos arredondados. Colunas de pedra se curvam para dentro e fora do chão como uma onda. Taliyah sentiu a terra ascender, carregando-a para a noite escura, o vento selvagem que era Yasuo seguia logo atrás.

Yasuo olhou para a taverna distante lá atrás. Os pontos arredondados de pedra costuraram o caminho, selando-o e bloqueando qualquer aproximação vinda dali. Isso lhes deu tempo, mas o amanhecer logo chegaria. E com ele, mais homens para eles. Para ele.

“Eles conheciam você”. A voz da Taliyah era silenciosa. “Yasuo”, ela parou na última palavra.

“Precisamos continuar andando”.

“Eles o queriam morto”.

Yasuo deixou escapar um suspiro. “Muitas pessoas me querem morto”, ele disse. “E agora algumas a querem morta também. Se importa para você, eles falavam de um crime que não cometi”.

“Eu sei”.

Yasuo não era o nome apresentado a ela em sua jornada, mas não importava. Ela não perguntou sobre o passado dele quando viajaram juntos. Na verdade, ela não perguntou ou pediu nada, exceto para ser ensinada. Ela o via como seu mentor agora, e parecia que sua confiança era quase dolorosa para ele. Talvez mais que se ela pensasse que ele fosse culpado. Ele se virou e começou a andar para longe dela.

“Onde você está indo? Shurima fica ao oeste”. A confusão em sua voz era mais aparente.

Yasuo não se virou para encará-la. “Meu lugar não é em Shurima. E nem o seu. Ainda não”. Suas palavras eram frias e calculadas, como se ele estivesse se preparando contra uma tempestade que estava a chegar.

“Você ouviu os mercadores. A cidade perdida ressurgiu”.

“Contos para assustar os comerciantes e aumentar o preço do linho shurimane”, ele disse.

“E se um deus vivo anda pelas areias? Você não sabe o que isso significa. Ele vai reivindicar o que foi perdido. O povo que um dia o serviu, as tribos…” A voz de Taliyah se encheu com a emoção da noite, suas palavras ebuliam. Ela viajou para tão longe para protegê-los e agora estava a um mundo de distância quando eles precisavam dela. Ela esticou a mão, ficando a pouco de puxar o braço do homem, tudo para fazê-lo ouvir, para fazê-lo ver.

“Ele vai escravizar minha família”. Suas palavras ecoaram nas rochas ao redor deles. “Preciso protegê-los. Você não entende isso?”

Uma rajada de vento apareceu, agitando pedras no chão e tirando o cabelo negro de Yasuo de seu rosto.

“Proteger”, ele disse, sua voz era meramente um sussurro. “A sua Grande Tecelã não olha sobre eles?” As palavras agora vinham de dentes rangentes. O homem, seu professor, virou-se para a estudante solitária, raiva transparecendo em seus olhos negros assombrados, com emoção pura encarando-a. “Seu treinamento não está terminado. Você arrisca sua vida voltando para eles”.

Ela se impôs e o encarou.

“Eles valem minha vida”.

O vento rodopiou ao redor deles, mas a garota estava imóvel. Yasuo deu um longo suspiro e olhou para o leste. Um fiapo de luz começou a aparecer na noite azulada. A última das rajadas turbulentas se acalmou.

“Você poderia vir comigo”, ela ofereceu.

As linhas duras do maxilar do homem relaxaram. “Ouvi dizer que o hidromel do deserto é muito bom”, ele disse. Uma brisa macia levantou o cabelo da garota. E no momento que ele acabou, foi substituído novamente por uma memória dolorosa. “Mas não terminei meus negócios em Ionia”.

Taliyah o estudou cuidadosamente e levou a mão para dentro de sua túnica, quebrando um fio longo que estava solto. Ela ofereceu o punhado de lã para ele. Ele encarou aquilo suspeitamente.

“É uma tradição de gratidão entre meu povo”, Taliyah explicou. “Deixar um pedaço de você mesmo é ser lembrado”.

O homem tomou o fio atentamente e amarrou seu cabelo com ele. Ele pesou suas próximas palavras cuidadosamente.

“Siga por aqui até o próximo rio do vale, e aquele rio até o mar”, ele disse, gesticulando na direção de um caminho de cervos. “Existe uma pescadora solitária lá. Diga a ela que você deseja ver Freljord. Dê isso a ela”.

O homem tirou uma semente de ácer de uma bolsa de couro em seu cinto e a pressionou contra a mão da garota.

“No Norte Gelado existe um povo que resiste ao domínio noxiano. Com eles você conseguirá passagem de volta às suas areias”.

“O que há nesta… Freljord?”, ela disse, testando a palavra em sua boca.

“Gelo”, ele disse. “E pedra”, adicionou com uma piscadela.

Era a vez dela de sorrir.

“Você se moverá rapidamente com as montanhas abaixo de você. Use seu poder. Criação. Destruição. Abrace-os. Tudo. Suas asas as carregaram até aqui”, ele disse. “Elas podem até carregá-la para casa”.

Taliyah encarou o caminho que levava ao vale do rio. Ela esperava que sua tribo estivesse segura. Talvez o perigo que ela imaginava estivesse só em sua imaginação. Caso eles a vissem agora, o que pensariam? Eles a reconheceriam? Babajan disse que não importa a cor do fio, não importa quão grosso ou fino o esboço fosse quando fosse levado ao mandril, uma parte da lã sempre continuava sendo o que era quando começou. Taliyah lembrou e se reconfortou com isso.

“Sei que você irá tecer o equilíbrio correto. Boa viagem, Pequena Pardal”.

Taliyah virou-se para encarar o companheiro, mas ele já havia ido embora. O único sinal de que ele já estivera ali era o de algumas folhas de grama que passavam no ar da manhã.

“Tenho certeza de que a Grande Tecelã tem um plano pra você também”, ela disse.

Taliyah guardou a semente de ácer cuidadosamente em seu casaco e começou a seguir o caminho até o vale com as pedras sob suas botas levantando-se para saudá-la.

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via League of Legends

Sobre Blitzcrank

o Grande Golem a Vapor. Redator do LegendsBR nas horas vagas.

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