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Ícone de piltover grátis e histórias de Camille

A Riot publicou novidades sobre o lançamento da Camille. Com o mesmo estilo e também fazendo parte do universe foram lançados conteúdos literários sobre Camille e outros conteúdos que ainda não foram revelados sobre outros campeões, além da cidade mais moderna de Runeterra, Piltover.

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Um ícone de Piltover gratuito será lançado, provavelmente quando a campeã já estiver disponível para venda na loja.


 

Veja algumas histórias de Camille. Os textos são grandes mas são muito bons:

• Camille, a sombra de ferro

Armorizada para agir fora do âmbito da lei, Camille é uma elegante detetive de elite que trabalha para garantir o bom funcionamento da máquina de Piltover e seu apêndice zaunita. A verdadeira força de Camille é sua adaptabilidade e atenção aos detalhes, vendo uma técnica ineficaz como um vexame a ser corrigido. Criada sob muitos costumes e riqueza, ela é a Líder da Inteligência do Clã Ferros e tem a tarefa de cortar os problemas mais sombrios de sua família com precisão cirúrgica. Com a mente tão afiada quanto as lâminas que porta, a busca por superioridade de Camille, através dos aprimoramentos hextec em seu corpo, faz com que muitos questionem se ela hoje é mais máquina do que mulher.

A maior parte da fortuna da família de Camille foi obtida por meio de um cristal raro, encontrado com criaturas nativas das areias de um vale distante. Esses primeiros cristais hex, ou “primeiros cristais”, continham um poder normalmente reservado àqueles que nasciam com uma habilidade mágica nata. A tia-tataravó de Camille, Elícia, perdeu um braço, e quase a própria vida, durante uma dessas primeiras expedições. Seu sacrifício foi festejado e deu início a um princípio que perdura até hoje como lema da família: “Darei tudo pela família”.

As criaturas encontradas por Elícia Ferros, os Brackern, não eram recursos infinitos, e a família de Camille precisou encontrar meios de multiplicar os cristais acumulados. Fazendo certos investimentos paralelos em tecnologias químicas e alquimia rúnica, a família Ferros lançou no mercado os cristais hex sintéticos, um cristal menos poderoso porém mais fácil de ser obtido. Um poder desta magnitude geralmente traz consequências e acredita-se que a produção dos cristais sintéticos contribua massivamente com a Zaun Cinza.

Nascida em uma das famílias mais abastadas da ilustre Corte Ventazul de Piltover, Camille era a sexta filha de Rhodri e Gemma, os senhores do Clã Ferros na época. No entanto, Camille e seu irmão mais novo, Stevan, foram os únicos dois filhos que alcançaram a idade adulta.

Com toda a atenção da família voltada para Camille por ser ela a filha mais velha, nenhum recurso foi poupado em sua educação e desde cedo ela desenvolveu um comportamento aristocrático e um forte senso de dever. Com as frequentes visitas que as figuras mais proeminentes de Valoran faziam a Piltover, Camille teve vários tutores excepcionais ao seu dispor. Consequentemente, ela fala o dialeto Zhyun da Ionia do Sul e o Ur-noxiano fluentemente. Quando criança, Camille foi incentivada a se interessar pela história de Valoran e aprendeu a ler e escrever em shurimane arcaico enquanto ajudava seu pai em escavações no Vale Odyn. Camille também se tornou uma musicista talentosa e toca a cellovinna como uma concertista.

Entre as famílias mais influentes de Piltover, o costume é que um dos filhos mais novos assuma o posto de chefe de inteligência da família, a espada e o escudo do clã. Os escolhidos têm o dever de agir em favor do interesse de uma família de Piltover, trabalhando junto ao chefe do clã para garantir o sucesso da família pelos meios que forem necessários. O Clã Ferros, repleto de segredos, sempre levou muito a sério esta posição e sempre investiu recursos consideráveis para garantir que seu chefe de inteligência sempre fosse o melhor. O irmão de Camille, Stevan, nasceu com vários problemas de saúde e era considerado inelegível. Seus pais — especialmente seu pai — ficaram extremamente orgulhoso quando Camille assumiu o lugar de Stevan como chefe de inteligência do clã. A inveja de Stevan veio a tona ao ver Camille se dedicar aos novos treinamentos e tutorias. Ela virou especialista em combate, espionagem e interrogatórios. Suas técnicas favoritas eram a luta com a espada dos Shon-Xan, obter informações por meio de interrogatórios tradicionais e descer de rapel de um relógio quebrado se segurando em uma corda e um gancho originários das Ilhas das Serpentes Ocidentais.

Quando Camille fez 25 anos, ela e seu pai foram atacados por um bando de bandidos aprimorados. A gangue estava determinada a elevar seu status no submundo de Zaun pondo as mãos em alguns dos segredos mais lucrativos da família. Camille e seu pai ficaram feridos. Camille se recuperou, mas seu pai morreu em decorrência dos ferimentos. A mãe de Camille faleceu logo em seguida, incapaz de suportar a angústia que se abateu sobre a casa. O título de chefe do clã passou para o irmão de Camille, Stevan. Jovem, impetuoso e ansioso por provar que podia ser o líder da família, Stevan intensificou as já extensivas pesquisas dos Ferros sobre o aprimoramento hextec em humanos.

Após um ano de luto, a casa dos Ferros recebeu uma resplandecente decoração para as audições do Dia do Progresso. Stevan coordenou pessoalmente a posse de Hakim Naderi como

artífice-chefe da família. Hakim era um jovem cristalógrafo de Bel’zhun, uma cidade litorânea de Shurima.

Abalada por não ter sido capaz de proteger seu pai, Camille solicitou que Hakim realizasse uma operação de aprimoramento hextec que elevasse seu poder a níveis superiores aos do seu corpo humano. Quando Hakim conheceu Camille, ele se encantou à primeira vista e se mostrou determinado a resgatá-la da escuridão causada pela morte de seus pais. Eles passavam muito tempo juntos no trabalho e longas noites conversando sobre as areias de Shurima. Após meses trabalhando lado a lado, Camille não podia mais negar que também sentia algo por Hakim. Com a proximidade do dia do procedimento de aprimoramento corporal, os dois se entregaram aos seus sentimentos, pois sabiam que a cirurgia marcaria o fim da relação entre os dois. Hakim voltaria a se dedicar a outros projetos para a família e Camille estaria novamente comprometida com suas funções como chefe de inteligência. Mais do que isso, Hakim temia que, ao extrair o coração de Camille, um corte mais profundo pudesse despojar toda a sua humanidade.

Dias antes da operação de Camille, as dúvidas de Hakim em relação ao procedimento vieram à tona. Ele a pediu em casamento e implorou que ela fugisse com ele em vez de se submeter à cirurgia. Ele imaginou o futuro dos dois–passeando pelas areias douradas de Bel’zhun, desvendando as ruínas da Shurima Antiga, criando filhos juntos–, um futuro distante do dever que Camille tinha para com sua família. Pela primeira vez na vida, Camille se sentiu dividida.

A posição de Stevan como chefe do clã dependia fortemente da capacidade de Camille de colocar em prática a visão dele. Quando ele soube do pedido secreto, percebeu que estava prestes a perder sua chefe de inteligência e, consequentemente, o controle da família Ferros. Stevan bolou um plano para lembrar Camille o compromisso que ela tinha assumido com o pai. Stevan planejou um ataque da próxima vez que Camille e Hakim estivessem juntos. Se aproveitando da fragilidade que um dia havia lhe roubado seu lugar de direito, Stevan apareceu para Camille ensanguentado e espancado, reavivando nela as memórias da noite em que não foi capaz de ajudar seu pai. Camille não podia negar o sangue em suas mãos, ali para mostrar o que podia acontecer quando ela perdia o foco.

Hakim implorou, mas ela o ignorou. O seu dever existia há várias gerações e, se ela estivesse mais bem preparada para cumpri-lo, poderia ter evitado a morte do pai e os ferimentos do irmão. Camille insistiu em ir adiante com a operação e encerrou seu relacionamento com Hakim.

Hakim ainda amava Camille e sabia que era o único capaz de realizar a cirurgia com sucesso. Incapaz de deixar o amor da sua vida morrer na mesa de cirurgia, ele extraiu o coração de Camille como ela havia pedido. Após ter certeza de que o novo coração mecânico não precisava do antigo para bater, Hakim abandonou o cargo. Camille acordou e viu que o laboratório onde ela e Hakim trabalhavam juntos estava vazio e abandonado.

Camille mergulhou de cabeça no trabalho e adicionou outras melhorias, como pernas em forma de lâminas, quadris em forma de gancho e outros pequenos aprimoramentos hextec. Cada adição levava Camille, e a tecnologia cada vez mais ambiciosa, a novos patamares. Alguns se perguntavam o que ainda restava realmente daquela moça. À medida que o Clã Ferros acumulava mais poder e riqueza, as missões que Camille realizava para o irmão se tornavam mais obscuras e perigosas.

Graças às vibrações rejuvenescedoras do seu coração hextec, o tempo passava e Camille não envelhecia, e logo Hakim Naderi passou a ser apenas uma memória distante. O passar dos anos não foi tão generoso com o irmão de Camille. O corpo de Stevan ficou mais frágil, mas isso não o fez querer abdicar do título de chefe do clã.

Em uma tarefa recente, Camille encontrou um ingênuo piltovense que havia participado de uma missão mal sucedida e isso desenrolou uma série de eventos que terminaram revelando a traição de Stevan. As mentiras que levaram Hakim a se afastar agora ameaçavam destruir Camille e o próprio clã. Ela enxergou a realidade dos esquemas do irmão; egoístas e bem distantes dos interesses da família. Naquele momento, o que restava de sentimento pelo irmão se esvaiu e ela assumiu o controle do clã Ferros.

Agora Camille é responsável pelos assuntos públicos da família por meio de sua sobrinha-neta favorita, que foi nomeada chefe do clã. Isso permite que Camille continue com as operações mais clandestinas que garantem o sucesso da família. Comprometida com seu papel de solucionadora de problemas difíceis, Camille aceitou sua transformação sobre-humana e as críticas e julgamentos provocadas por ela. Com a energia dos cristais hex fluindo em suas veias, Camille nunca consegue ficar parada, e o que a fortalece são as tramas de espionagem industrial bem executadas, um chá feito na hora e longas caminhadas no Cinza.

O coração mais mole

“Você devia ter matado ela.”

Meu irmão acomodou dois torrões de açúcar cuidadosamente em uma colher furada apoiada na borda da sua xícara de chá. A sua atenção dedicada voltou-se então para o ato de servir o chá. As linhas do seu rosto se transformaram em um sorriso e ele deu uma risadinha enquanto via os cubos derreterem e desmoronarem uns sobre os outro. Incapazes de fugir, aqueles restinhos de doçura desapareceram no líquido escuro.

“A senhorita Sofia não será um problema”, disse eu.

Stevan fez um gesto com a mão, incomodado. “Hoje pode ser. Mas e amanhã? As emoções apodrecem quando não as cultivamos, minha irmã.” Ele me olhou inquisitivo. “É melhor apagar as brasas antes que a casa pegue fogo, não acha?”

“Falei com o chefe de inteligência dos Arvino—”

“Vocês, agentes da inteligência, e seus acordos. Ainda acho que ela traiu a casa dela e deveria pagar com a própria vida—”

“Pode ser que haja um momento para isso” disse eu suavizando meu tom de voz. “Mas eu fiz o acordo. Adalbert garantiu que ela não se meterá em confusão. Ela é responsabilidade dele.”

A minha parte na discussão havia acabado. Stevan se acomodou na cadeira com um olhar de aceitação forçada e cutucou a manta sobre o seu colo.

“Aquele homem precisa de mais um par de olhos naquela cabeça” resmungou ele baixinho. Para Stevan, o que importava era o resultado final e não a busca por uma solução. Para o meu irmão, minhas ações podiam resolver muitos dos problemas de Piltover. Ele raramente considerava as escolhas que levavam às decisões.

Segurei a xícara com uma mão e coloquei a outra na cintura distraidamente, apoiando-a na corda do gancho enrolada. Stevan tinha razão em parte. Os resultados finais são interessantes, mas eu prefiro a caçada.

Olhei Stevan por entre o vapor da minha bebida. Ele apertou os lábios, como se estivesse decidindo algo. A pressão deixou a pele do seu queixo branca e salientou as marcas da idade que o xale enrolado em seu pescoço tentava esconder.

“Tem mais alguma coisa” disse eu.

“Sou tão óbvio assim, minha irmã?”

Acho que ele teria corado se seu pulso fraco lhe tivesse permitido. Em vez disso, ele exibiu um sorriso dolorido e puxou um pedaço de papel dobrado e um terço de contas de uma gaveta da mesa que nos separava. Ele empurrou sua cadeira de rodas para trás e tossiu por causa do esforço. Na cadeira, ele mexeu em pequenas alavancas e aquele leve esforço fez girar pequenas engrenagens, e depois engrenagens maiores, até que o mecanismo ativou as rodas, trazendo-o até mim.

“O breve noivado da senhorita Arvino não foi a única coisa descoberta nessa confusão”, disse ele. “Isto foi encontrado com um dos homens do barão durante a limpeza.”

Coloquei a xícara de volta no pires e peguei o pedaço de papel e o terço que ele me entregou. Reacomodei minhas lâminas e suas pontas afiadas entraram ainda mais fundo no macio carpete.

As bordas do bilhete estavam queimadas e um tom esverdeado se espalhara no papel por causa do calor. O terço parecia bem conservado. A superfície das contas de vidro estavam polidas e brilhosas.

“Camille.”

Meu irmão só falava meu nome dessa forma quando o assunto era sério. Ou quando ele queria algo. Abri o bilhete e senti o cheiro desagradável e pungente de Zaun emanando do papel. Olhei atentamente o conteúdo no papel. O diagrama era claro e organizado e a escrita fluida e precisa. Meus olhos reconheceram a marca do artífice ao mesmo tempo que Stevan falou.

“Se Naderi tiver voltado–”

“Hakim Naderi não existe mais.” As palavras saíram da minha boca como por reflexo.

Já havia mais de dois anos desde que o cristalógrafo servira como Artífice-Chefe da nossa casa–fazia muito tempo.

Stevan contemplou seu próximo passo. “Minha irmã, você sabe o que é isso.”

“Sim.” Olhei novamente para o papel. O diagrama reproduzia a estrutura mecânica e cristalina que batia dentro do meu peito.

Eu tinha, em minhas mãos, o projeto do meu coração.

“Achávamos que todos haviam sido destruídos. Se esse existe, pode ser que existam outros. Enfim, eu poderia finalmente me livrar desta cadeira” disse ele. “Andar pela minha casa como um mestre de clã deve fazer…”

“Talvez seja hora de deixar outra pessoa assumir as responsabilidades de mestre do clã” respondi eu.

Já fazia muitos anos que Stevan não conseguia mais circular pela casa sozinho. E isso era algo que seus próprios filhos e netos não o deixavam esquecer. Aquilo não era apenas um pedaço de papel e um terço. Para Stevan, aquele era o mapa da imortalidade.

“Isso é apenas um projeto” continuei. “Você acha que se encontrarmos os outros projetos de Naderi, nossos artífices conseguirão recriar o trabalho dele. Mas ainda não saberíamos como fazer funcionar…”

“Camille, por favor.”

Olhei para o meu irmão. O tempo não havia sido gentil com aquele corpo frágil de nascença. Seus olhos, porém, após tantos anos, ainda eram como os meus e refletiam o azul dos Ferros. Aquele tom intenso não podia ser apagado pela idade nem pela doença. Eles ainda mantinham a cor brilhante dos cristais hex que iluminavam o desenho nas minhas mãos. Agora ele me olhava com um olhar apelativo.

“Você e eu lideramos esta casa melhor do que nossos pais jamais poderiam ter sonhado” disse ele. “Se o seu aprimoramento puder ser reproduzido, esse sucesso, nosso sucesso, Camille, poderá continuar para sempre. Esta casa irá garantir o futuro de Piltover. Nós garantiremos o progresso de toda Valoran.”

Stevan sempre teve uma queda pelo drama. Somando isso à sua constituição mais frágil, sempre foi mais difícil para os nossos pais dizerem não a ele.

“Não sou agente de inteligência de toda Valoran. Talvez eu não encontre nada.”

Stevan suspirou aliviado. “Mas você vai procurar?”

Confirmei com a cabeça e devolvi o diagrama, mas guardei o terço todo enrolado no meu bolso. Quando me virei para sair do escritório…

“Camille? Se ele estiver vivo, se você o encontrar–”

“Será como antes” disse eu, interrompendo meu irmão antes que ele desenterrasse o passado ainda mais. “Meu dever, como sempre, é com o futuro desta casa.”

Naquele fim de tarde, a multidão ainda se aglomerava nas proximidades do Comércio de Vento do Norte, à espera das festividades do Dia do Progresso. As pessoas estavam coradas por causa dos preparativos do evento anual que a cidade realizava para celebrar a inovação. Contudo, não foram elas, mas sim um comerciante estrangeiro torto de bêbado, que revelou minha segunda sombra.

“Pelas tetas geladas de Ursine”, disse o comerciante, frustrado com os empurrões da multidão. Ele afastou todos que haviam parado para lhe ajudar. “Eu não preciso de ajuda.”

As abelhas-operárias de Piltover zumbiam ao nosso redor. Todas, exceto uma dourada que se encontrava no final da praça. Mantive-a no meu campo de visão enquanto me inclinava sobre o comerciante à minha frente.

“Então levante-se”, disse eu.

O freljordiano olhou para mim. Ele ficou tão irritado que colocou a mão na cintura a fim de puxar sua adaga de marfim. Eu o encarei e observei como ele olhou para o cristal hex no meu peito e para as lâminas das minhas pernas. Foi aí que ele largou a faca.

“Bom garoto”, disse eu. “Agora, saia do meu caminho.”

Ele balançou a cabeça, estupefato. Em seguida, ele se afastou e o ritmo coordenado do mercado de Piltover continuou a se desfazer e a se refazer à medida que ele cambaleava pela rua. Somente a minha sombra permaneceu imóvel, observando-me de uma barraca mais afastada.

Continuei andando pela multidão, passando facilmente pelas pessoas que abriam caminho ao me ver. E quando a oportunidade surgiu, entrei em um beco e disparei meu gancho farpado em um elevado tirante de madeira acima do corredor. Escondi-me na escuridão e esperei.

Em poucos instantes, minha escolta entrou no beco. Ela vestia camadas de roupas simples o suficiente para não chamar atenção nas ruas simples de Zaun, mas o chicote ornamentado que ela carregava denunciava Piltover, ou pelo menos um patrono bem generoso. Deixei que ela avançasse até um foco de luz para cegá-la. Quando ela parou onde eu queria, pulei atrás dela e finquei as pontas das minhas lâminas no chão de paralelepípedos.

“Perdeu algo, garota?” Disse eu com um leve rosnado.

Ela colocou a mão no cabo de couro preto do chicote. A vontade era grande, mas o bom senso pareceu prevalecer.

“Acho que já achei o que procurava.” A garota colocou as mãos abertas sobre os ombros. “Tenho uma mensagem.”

Levantei uma sobrancelha.

“É do seu irmão, senhora”, disse ela.

O melodrama de Stevan poderia terminar matando alguém se ele não tomasse cuidado.

“Pode me entregar.”

A garota manteve uma mão erguida e usou a outra para tirar um pequeno bilhete da manga apertada. O selo de cera continha o símbolo de confidencialidade dos Ferros e a marca pessoal de Stevan.

“Se você fizer qualquer movimento, eu corto a sua garganta”, disse eu.

Eu abri o bilhete, e senti meu nível de irritação subir como uma febre. Steven havia resolvido contratar uma assistente para mim. Para o caso da minha missão despertar algum tipo de “sentimentalismo” que viesse a me impedir de cumprir o meu dever.

Sabia que ele tinha boas intenções mas, mesmo após tantos anos, ele parecia não confiar em mim quando o assunto era Hakim. Foi covardia dele varrer isso para debaixo da sua manta em vez de falar comigo antes de eu partir.

“Eu deveria matá-la por me trazer este insulto”, disse eu, avaliando a reação dela. “Seu nome.”

“Aviet.” Ela manteve a voz e as mãos estáveis. Era jovem e não tinha nem sequer um dedo aprimorado.

“E você aceitou a tarefa sabendo das possíveis consequências da minha irritação?”

“Sim, senhora”, disse ela. “Esperava que, caso eu lhe agradasse, eu poderia conseguir uma posição mais permanente na sua casa.”

“Entendo.”

Dei-lhe as costas e me dirigi para a saída do beco, dando a ela uma oportunidade de me seguir caso essa fosse mesmo sua intenção. Escutei sua respiração e o atrito do aço do seu chicote quando ela o tocou. Em seguida, escutei seus passos.

“Temos um destino, senhora?”

“A igreja”, disse eu, dando um tapinha no terço que estava no meu bolso. “Não fique para trás.”

A Primeira Assembleia dos Gloriosos Evoluídos ainda ficava tecnicamente dentro de Piltover, mas por muito pouco. Aqui, após deixar para trás os mercados da fronteira, os odores pungentes da cidade se sobressaem ao cheiro festivo das carnes assadas e dos doces. O cinza de Zaun toma conta como uma maré baixa, batendo nas pernas e se acumulando nos toldos cobertos de fuligem dos comerciantes, formando poças de gosma opaca.

Eu me virei para a garota. “Você fica aqui.”

“Tenho ordens para segui-la”, disse Aviet. “Seu irmão–”

“Você fica aqui”, repeti, sem deixar margem para argumentação. Minha paciência para os joguinhos do meu irmão estava se esgotando. “Os Gloriosos Evoluídos são crentes fervorosos. Eles não aceitam os não-aprimorados com facilidade.”

Analisei minha nova assistente de cima a baixo, esperando sua resposta. Aviet recuou um pouco. Ela ainda queria argumentar, mostrar serviço, mas não tinha certeza se esse era o melhor momento.

Eu sorri. “Você terá outras oportunidades, meu bem.”

A entrada do prédio antigo levava a um saguão pouco iluminado, separado do salão principal por uma grade de ferro. Do outro lado dos losangos de ferro, vários conjuntos de lâmpadas térmicas alaranjadas iluminavam a congregação. As mais ou menos 50 pessoas presentes murmuravam em uníssono, dando a impressão de haver uma grande máquina respirando por baixo delas. Veludos de cores escuras cobriam as partes dos seus corpos que ainda eram feitas de carne, enquanto seus braços mecânicos e pernas aprimoradas ficavam expostos à luz. Aqui, aprimoramentos de última geração se misturavam a outros mais funcionais. Piltovanos, zaunitas, nada disso importava para os Gloriosos Evoluídos. Os rótulos eram secundários perante o propósito maior. No centro do grupo, uma jovem com cotovelos mecânicos se aproximou de um homem com uma brilhante mandíbula metálica.

“O corpo é frágil”, disse ela ao homem. “A carne é fraca.”

“A máquina nos leva adiante”, respondeu o grupo. E as palavras ecoaram pelo ar. “O futuro é o progresso.”

Eu não estava ali para assistir aquilo. Fiquei nas sombras, escondida do rebanho aprimorado, e continuei a minha busca.

Ouvi o suave borbulhar do filtro esofágico do Irmão Zavier antes mesmo de vê-lo. Sua cabeça calva estava curvada sobre o peito, até onde seu aparato respiratório permitia. Ele estava acendendo algumas luzes nos cantos do altar da capela lateral.

Havia, atrás dele, uma figura imponente com contornos em chumbo e vidro fosco. Era a Senhora Cinzenta, patrona sagrada dos Gloriosos Evoluídos. O vitral da janela tinha um brilho exterior e ficava estranhamente iluminado pelas lâmpadas lá fora.

Eu me aproximei do santuário. Havia jarras com órgãos dentro. Globos oculares boiavam como ovos em conserva. Havia oferendas enroladas em tecidos, alguns bem refinados, e outros gordurosos e esfarrapados. Algumas moscas zuniam em meio aos pedaços descartados pela congregação. Um dos pacotes enrolados se moveu. Um pequeno rato-preto botou o focinho para fora logo em seguida, desafiando-me a tomar-lhe o seu prêmio. A gaze do tesouro recém-encontrado ficou presa na beirada, deixando cair o restante do pacote e revelando um dedo dessecado. O rato saiu correndo mas o Irmão Zavier o enxotou de volta para a escuridão.

“Camille”, disse ele. Eu podia ouvir o sorriso na sua voz, por trás do gargarejo. “Você veio para a meditação?”

“Vim pela informação, irmão.” Retirei o terço do bolso. As contas de vidro estavam enroladas em uma corrente metálica.

O Irmão Zavier se virou para mim. Seus olhos também estavam sob vidros, ampliados como os dos vasos mas, ao contrário daqueles, os seus ainda estavam cheios de vida. Eu entreguei-lhe o terço.

“Onde conseguiu isto?” Ele balançou a cabeça enquanto o inspecionava e depois fez um estalo com a língua. “Não importa. Eu já deveria saber que não devo fazer essas perguntas.”

Ele voltou a cuidar das luzes do oratório. “Há várias semanas, encontrei um homem com isso. Ele veio acender uma luz e pedir uma dádiva para o próximo Dia do Progresso.” Ele acenou para frente com a cabeça, apontando para a figura na janela. O manto da Senhora Cinzenta era um mosaico de vidro cinza-liláceo, engrenagens enferrujadas e pistões enegrecidos. Seu epíteto costumava ser invocado quando um inventor se sentia perdido, por incapacidade ou fracasso. E a sua bênção costumava exigir um sacrifício.

“Ele tinha a pele bronzeada como a dos habitantes do deserto. Ele era mais velho do que os aprendizes estrangeiros que tentam fazer as audições”, continuou o irmão.

“Você sabe qual clã ele procurava?”

“Ele disse que estava em uma hospedaria próxima ao Clã Arvino.” O zumbido mecânico da congregação cessou. “O testemunho da noite acabou. O dever me chama.”

O Irmão Zavier deu um tapinha na minha mão, recolheu seu manto escuro, e voltou para o salão principal, deixando-me sozinha com meus pensamentos.

Hakim retornara, mas não tinha avisado. É claro que em nossa última conversa não havíamos combinado nada sobre entrar em contato um com o outro. Recolhi o dedo seco do chão e o coloquei de volta com as outras oferendas. A ideia dele fazendo petições como um aprendiz comum me irritava. Hakim era muito superior aos artífices do Clã Arvino. Através dos triângulos de vidro e losangos da janela da capela, pude ver Aviet aguardando sob um poste de luz. Ela ainda seguia as ordens… por enquanto.

Meu silêncio indulgente foi quebrado por um ruído suave, porém mas forte do que o de um rato. Senti o cristal hex no meu peito vibrar em antecipação quando me virei para a ameaça.

“Você é ela?” perguntou uma voz baixinha.

De um canto escuro, próximo a um banco metálico, uma garotinha se aproximou. Ela não devia ter mais de seis ou sete anos de idade.

“Você é a Senhora Cinzenta?” perguntou ela novamente. Já mais perto, o pulsar do meu cristal hex desacelerou, iluminando o rosto dela com um brilho azul-claro. Em uma mão, ela trazia um pacote enrolado em gaze, muito similar aos empilhados atrás de mim. A manga do outro lado no seu vestido estava faltando.

Na posição que eu estava, eu era muito mais alta do que ela. Ajoelhei-me, deixando meu rosto na altura do dela, e segurei suavemente no banco metálico para transferir um pouco da energia cristalina dos meus dedos. A garota observou a inquieta faísca refletindo no metal das minhas lâminas.

“Você ofereceu as suas pernas para o Dia do Progresso?” perguntou ela.

Os Gloriosos Evoluídos comemoravam a antiga tradição zaunita de sacrificar algo pessoal no Dia do Progresso, na esperança de que a próxima versão da invenção fosse ainda melhor. Era uma prática que remontava ao passado da cidade, quando as pessoas de Zaun tiveram que reconstruir suas vidas após a devastação do “Incidente”. A riqueza e o crescimento de Piltover sobre as ruínas devastadas serviam, para muitos, como evidência dos méritos dessa tradição.

Olhei para a garotinha. Não foram as minhas pernas que eu sacrifiquei há tanto tempo atrás no Dia do Progresso. Foi algo muito mais precioso.

“Eu optei por elas”, disse eu. “Porque elas eram mais úteis para o meu propósito.”

A garotinha balançou a cabeça. A luz azul entre nós havia diminuído, mas eu ainda podia ver as veias negras nos dedinhos que seguravam o pacote com força. Era raro a praga atingir alguém tão jovem nessa parte da cidade. Os Gloriosos Evoluídos costumavam acolher os doentes, vendo a remoção da carne morta como essencial para transformar a vida e a fé de uma pessoa por meio da tecnologia.

“O Irmão Zavier disse que vai ficar mais fácil”, comentou ela.

“Fica sim”, respondi.

O físico que cuidava dela não lhe dera a atenção devida. A garota deveria ter tido os dois braços removidos. Tenho certeza que o cirurgião explicou a falta de coragem com o bisturi como uma gentileza, mas a espera não ajudaria a garota em nada. Se o outro braço não fosse removido o quanto antes, aquelas veias negras chegariam cada vez mais perto do seu peito, escurecendo o seu coração. As suas chances de estar viva no próximo Dia do Progresso eram poucas.

A jovem mordeu um lábio em hesitação antes do próximo pensamento. Naquele instante, meu olho percebeu um movimento do outro lado de um dos vitrais maiores. Levantei-me e observei várias silhuetas escuras se aproximando. Aviet não estava mais só.

Fui para o corredor mal iluminado em busca da saída.

“Você sente falta delas?”, gritou a garotinha.

Eu não me virei. Eu sabia que o rosto esperançoso da pequena ficara incerto, como o brilho das luzes no altar. Sabia porque lembrava da minha própria incerteza. Há muitos anos, Hakim me fizera uma pergunta parecida. Do meu coração? Dele? Eu sentiria falta de alguma coisa? Coloquei a mão no meu aprimoramento cristalino, só para me assegurar de que ele ainda pulsava. Um pouco à direita do símbolo de sigilo dos Ferros, eu senti pequenas letras em alto relevo. Era a marca de Hakim Naderi.

“Não”, menti para mim mesma.

Aviet estava pronta para lutar. Seus cabelos dourados brilhavam como uma auréola sob a luz do poste. Cinco homens a cercavam, como tubarões. Os aprimoramentos utilitários deles faziam com que suas silhuetas tivessem formas arredondadas.

“Passa aqui essa belezinha que aí talvez a gente não te mate tão devagar”, gritou o menor, alvoroçado e de olho no chicote de Aviet. Todos os acontecimentos do dia se juntaram, do intrometimento fraternal de Stevan, à minha nova companheira desnecessária, à simples ideia de Hakim ter voltado. Senti a energia acumulada dentro de mim subir pela minha espinha, impaciente para entrar em erupção. Um meliante pomposo e seus capangas obedientes era tudo que eu precisava.

“Você não pediu por favor”, intervi.

O bocudo do nariz inquieto olhou para cima. “Ei, rapazes”, disse ele. “Agora está tudo resolvido. Parece vai ter para dar e vender.”

“É um prazer tê-la aqui, senhora”, disse Aviet.

“Sim. Estava prestes a fazer uma oferenda pelo Dia do Progresso”, disse um dos maiores, com um aprimoramento de cobre. Um comparsa do mesmo tamanho que ele levantou a touca suja de cima do seu aparelho ocular cheio de líquido e deu um sorrisinho zombeteiro. “Sua majestade.”

Coma minha chegada, eles se distraíram e desfizeram o círculo que haviam formado, criando uma pequena abertura.

Era mais do que suficiente.

Velocidade e precisão de raciocínio sempre foram meus melhores aliados. Corri em direção à abertura e agarrei o ombro do mais alto com um gancho de longo alcance. A lâmina da minha perna cortou a lã suja, fazendo surgir rapidamente uma linha vermelha no tecido. Contudo, foi o azul da energia cristalina que veio depois que o deixou inconsciente.

O gordinho e o que tinha o sotaque de Sump avançaram sobre Aviet, enquanto os mais altos vieram para cima de mim. Coloquei um belo sorriso macabro no rosto. Após tanta contemplação, isso era exatamente do que eu precisava.

Meus dois parceiros de dança, porém, não gostaram. Os dois tinham ombros pesados e reforçados como os sinos gêmeos que soavam pelo Comércio da Areia de Ferro. Eles ainda não haviam decidido quem atacaria primeiro, e essa indecisão foi a minha oportunidade. Resolvi atacar os dois.

Avancei na direção do que tinha o aparato ocular e deixei minha perna traseira rasgar os tubos entrelaçados do irmão revestido em cobre. Ele não fazia ideia do meu alcance e correu para reconectar as mangueiras cortadas a uma bomba que vazava. Um golpe rasante deixou a perna do seu parceiro inutilizada do joelho para baixo. Esperei um instante até o acobreado voltar com o braço que funcionava. Eles sempre acham que vão conseguir se esquivar do segundo ataque.

E sempre estão errados.

“Agora apanhe os cacos e saia da minha frente”, ordenei. Seu irmão já ia mancando em direção à escuridão, arrastando o que restava de sua perna pela lama.

O metal do chicote de Aviet ressoou pelo beco. Após outro estalido seco e metálico, faíscas choveram sobre o gordinho amedrontado que estava com o rosto no chão e lágrimas escorrendo pelas bochechas encardidas. Foram apenas quatro.

Olhei ao redor. O cara-de-rato com o ego superinflado não estava por perto. Encontrei-o tentando entrar no Salão da Assembleia.

Uma extremidade do meu gancho se prendeu a uma pedra posicionada acima da entrada do salão. Eu atingi rapidamente o rato de Sump, juntando meu peso e o dele em um bolo só.

Quando paramos de rolar, eu estava por cima. Sua respiração fétida estava acelerada e breve.

“Você achou mesmo que conseguiria fugir?” Perguntei baixinho e com calma.

Ele negou aterrorizado, mas sua mão remelenta tentou alcança a faca em seu cinto. Ele espremeu os olhos por causa do brilho intenso do meu cristal hex tão próximo ao seu rosto. Ele estava desesperado para enfiar a faca na minha coxa, fazer o que fosse para me afastar dele.

“Continue”, sussurrei.

Ele arregalou os olhos surpreso, mas não hesitou após a minha permissão. A ponta da faca perfurou o couro escuro, mas não passou dali, detida pelo metal da minha perna. Seu rosto demonstrou a sua surpresa logo que a mão dele foi empurrada pela força do golpe, fazendo com que a carne do seu punho cerrado fosse perfurada pela lâmina de sua própria faca.

Diferente dos outros, ele não engoliu o grito, que ressoou entre as pedras úmidas dos prédios ao redor.

Olhei para cima, seguindo o eco do Salão da Assembleia. O vitral da Senhora Cinzenta se erguia sobre nós. E um rostinho pequeno, colado ao vidro, assistia a tudo.

Curvei-me e deixei a lâmina do meu joelho quase encostar no pescoço do homem sob mim.

“Venha caçar aqui novamente e eu acabarei com você”, prometi a ele.

Ao perceber que havia ganho uma chance de viver, minha presa se afastou desajeitadamente, a passos de caranguejo. E quando havia uma boa distância entre nós, ele se levantou, segurando a mão ensanguentada, e correu para algum buraco escuro para lamber as feridas.

Pude ouvir Aviet recolhendo o metal do seu chicote.

“Ouvi dizer que a senhora não tinha um coração debaixo de todos esses mecanismos”, disse ela animada. “Acho que os boatos estavam errados.”

“Tenha modos, meu bem”, respondi friamente enquanto saía do beco. “Ou eu terei que moldar você.”

Os mercados fronteiriços e o Salão da Assembleia ficavam sempre na sombra, afundados por tantos arranha-céus de progresso ao redor. Contudo, a noite havia realmente caído quando chegamos à hospedaria mais próxima do Clã Avino. Após algum incentivo, o proprietário foi bastante generoso em nos mostrar seu registro, mesmo sua caligrafia deixando muito a desejar. Naderi estava no porão ou no terceiro andar. Mandei Aviet verificar o porão e alcancei uma janela aberta no terceiro andar com meu gancho.

A pequena forja nos fundos do quarto tinha virado um monte de brasas sob uma camada de cinzas. Me abaixei e entrei pela janela. O quarto estava mal iluminado, com apenas uma lâmpada acesa sobre uma mesa. Mas foi o homem adormecido sobre ela que me chamou a atenção. Ele tinha cachos negros e a pele bronzeada pelo deserto. A vibração do meu cristal hex acelerou. Talvez ele também tenha parado o tempo para si mesmo.

“Hakim”, chamei baixinho. O vulto debruçado sobre a mesa se moveu, despertando lentamente. Ele se espreguiçou com a graça de um felino e se virou. O jovem afastou o sono dos olhos, sem acreditar. Ele era tão parecido com Hakim que chegava a doer.

Mas não era ele.

“Senhora Ferros?” Ele se sacudiu para acordar. “O que faz aqui?”

“Nos conhecemos?”, perguntei.

“Não, na verdade, não, senhora”, disse ele quase sem jeito. “Mas eu vi o seu rosto várias vezes.”

Ele voltou à mesa e revirou alguns papéis, pegando o mais antigo e mais surrado de todos, e o entregou a mim.

Os traços eram fortes, as linhas impecáveis e ordenadas, e o sombreamento preciso. Era obra de Hakim, mas não era um diagrama. Era um desenho do meu rosto. Eu não lembrava de ter posado para isso. Ele deve ter desenhado de memória após trabalhar no laboratório alguma noite. Meu cabelo estava solto. Eu estava sorrindo. Era uma mulher apaixonada.

A dor foi tão aguda que eu não conseguia controlar minha respiração. Eu não disse nada ao jovem à minha frente. Não conseguia dizer nada.

“Parece ter sido desenhado ontem, senhora”, disse ele, preenchendo o silêncio.

Era um elogio, mas que só fez aumentar a distância do tempo na minha mente.

“Meu tio guardou isso consigo até morrer.”

“Seu tio, ele está morto?”

“Sim, Hakim Naderi. A senhora lembra dele?” perguntou o rapaz.

“Sim.” A palavra parecia presa na minha boca, enrolada em uma pergunta egoísta que eu guardara comigo por tempo demais. Uma pergunta para a qual eu não tinha certeza se queria resposta. Se a dor da memória ia me atingir como milhares de pequenos cortes, era melhor abrir todas as feridas e acabar logo com isso. Olhei para o jovem que se parecia tanto com Hakim. “Diga-me, seu tio casou-se?”

“Não, senhora”, disse ele, sem saber ao certo se isso me decepcionaria. “O tio Hakim dizia que amar seu trabalho era mais do que ele podia esperar da vida.”

As minhas lágrimas haviam secado há muito tempo. Não restava uma sequer para aquele momento. Peguei a pilha de papéis e coloquei o desenho do meu rosto em cima. Os traços de tinta se moviam com a luz azul da máquina que substituíra meu coração. O que eu havia sido. Do que eu abri mão. Todo o doloroso sacrifício que me tornara o que sou hoje. Tudo aquilo reproduzido nos mínimos detalhes. Eu podia guardar o passado, mas nunca o teria de volta.

“Isto é tudo? Toda a obra?” As minhas palavras soaram como um sussurro sombrio.

“Sim, senhora, mas…” a voz dele se dissipou e ele ficou aterrorizado ao me ver colocar a pilha de papeis sobre as chamas, queimando-a lentamente. O pergaminho a óleo pegou fogo e queimou rapidamente, gerando uma luz alaranjada. Eu vi o passado crepitar e escurecer até não restar mais nada além das cinzas e do pó. Foi o jovem quem me trouxe de volta ao presente.

O sobrinho de Hakim balançou a cabeça lentamente, a descrença palpável no seu rosto. Eu sabia como perder tanta coisa, com tanta rapidez, podia ser doloroso. Ele estava anestesiado. Escoltei o jovem escada a baixo até chegarmos na rua. Ele arrumou a bolsa de couro no ombro e olhou para as pedras no chão.

Depois olhou para mim; e o ar de derrota foi substituído por um medo crescente. Eu estava tão perdida no meu próprio passado que não percebi as sombras na rua. Mal ouvi o balançar do cabo metálico. O movimento do chicote foi rápido e prendeu meus braços junto ao meu corpo.

“Já basta, senhora”, disse Aviet. Havia satisfação em sua voz. Assisti enquanto ela observava o sobrinho de Hakim de cima a baixo.

“Foi para isso que meu irmão lhe pagou?” Era o que eu suspeitava. Aviet havia esperado a noite inteira por uma oportunidade. A minha distração ao encontrar o sobrinho de Hakim se mostrou a oportunidade perfeita.

“Sim”, disse ela. “A todos nós”.

Dois homens grandes apareceram, com seus aprimoramentos reparados, sob a luz do poste. O gordinho e o seu parceiro com cara de rato apareceram em seguida. Eram os mesmos homens do beco atrás do Salão da Assembleia. O gordinho ameaçava o sobrinho de Hakim com uma faca enquanto o outro, com aquele sorriso de rato, amarrava e amordaçava o jovem aprendiz.

O brutamontes avançou com seus tubos reconectados. Seus dedos se contorceram, ansiosos para se vingar da violência sofrida mais cedo.

“Cuidado com os cristais, Emef”, disse Aviet. O chicote apertou, e eu senti algemas metálicas prenderem meus pulsos. Ela deu a volta para ficar ao lado do sobrinho de Hakim. “Temos que levar eles e o Naderi, senão ninguém será pago.”

Será que meu irmão fez isso tudo por inveja? Eu sabia que Stevan sentia o peso dos anos e, enquanto isso, eu era quase imortal. Mas ele não fazia a mínima ideia do preço que paguei para servir à minha família. Será que ele não via o que isso lhe custaria?

“E essa daí?” perguntou o homem de cobre, sorrindo para mim como se estivesse prestes a se esbaldar em um banquete do Dia do Progresso.

“Toda sua”, respondeu Aviet.

“Obrigada, Majestade, por demonstrar seus talentos anteriormente”, disse ele enquanto fechava seu punho aprimorado. Ele não sentiu necessidade alguma de esconder o telégrafo diante de um inimigo amarrado. Ele abriu um sorriso ainda maior. “Assim vai ser muito mais rápido.”

Os punhos metálicos atingiram minha mandíbula. Ele esperava que eu resistisse, mas em vez disso, eu caí de joelhos com o soco. A inércia forçou seu braço aprimorado a também cair ao chão. Senti o gosto do meu próprio sangue na boca, mas foi ele quem perdeu o equilíbrio. O falatório do resto do bando cessou.

“Vocês ainda não viram todos os meus truques”, disse eu ao me levantar.

A energia dos meus cristais hex corria pelo meu corpo, acumulando-se como uma armadura. O irmão do brutamontes tentou intervir atingindo a fonte de luz com seu punho aprimorado. O escudo estalou e chiou, mas se manteve firme. Era a minha vez de sorrir.

Aviet pegou o cabo do chicote metálico para tentar destruir o campo de energia. Ela o sacudiu com força para me desequilibrar. Ela não fazia a mínima ideia de quanto tempo eu passara vivendo sob a mira de uma navalha.

Com as mãos ainda presas, eu avancei com um chute giratório, cortei a garganta do segundo brutamontes e depois empalei o primeiro. A ponta do chicote escapou da mão de Aviet. E ela chamou os dois que seguravam o sobrinho de Hakim.

“Se abandonarem o serviço, eu mato os dois.”

“E agora, você ainda acha que eu tenho um coração?” Eu perguntei com os dois gigantes mortos diante de mim.

Aviet estava vacilante, mas manteve a postura.

“Eu sou a espada e o escudo do Clã Ferros”, disse eu, com frieza emanando de cada palavra. “Meu irmão quer me matar para estender sua vida frágil por mais uns poucos momentos de puro egoísmo. Os desejos dele traíram seu dever e a nossa casa.”

Senti os cristais pulsarem mais rápido.

“E você não viverá para ver o sol nascer”, concluí.

Canalizei a energia do cristal por um instante, acumulando sua intensidade até transformar o escudo que me cercava em uma jaula elétrica. Não tinha escapatória.

Dei um pulo, ainda mais alto que o anterior, e aterrissei com força, estilhaçando o metal que prendia meus pulsos e os paralelepípedos que haviam entre nós. A força do impacto derrubou Aviet, seus dois capangas e o sobrinho de Naderi. Uma cratera se formou na rua e o ar ficou turvo com a poeira. A luta que Aviet desejava desde que nos conhecemos, para mostrar serviço ao meu irmão, não estava sendo como ela previra. Os saltos de suas botas de couro arranharam as pedras da rua, e seu corpo anunciou a retirada antes mesmo que sua mente tivesse concordado. Pude ver o medo estampado em seu rosto enquanto ela me encarava. Não sei o que meu irmão lhe disse sobre mim, mas ela certamente subestimou a informação. Ela viu que qualquer resquício de piedade que ainda havia em mim desaparecera com a revelação da traição do meu irmão.

Avancei e dei um golpe circular com minha perna traseira. Me debrucei sobre a navalha quando ela atingiu seu alvo. Aviet lutou para não colocar as entranhas para fora, mas seu esforço foi em vão. Acabei com seus últimos dois capangas e o beco atrás da hospedaria voltou a ficar em silêncio. Apanhei o chicote ensanguentado de Aviet do chão.

O sobrinho de Hakim Naderi estava com as costas contra uma parede, em pânico. Era possível ouvir a respiração ofegante do jovem através do tecido sujo da mordaça que o sufocava. Me aproximei dele como quem se aproxima de um animal que não deseja assustar. Soltei as cordas que prendiam seus punhos e lhe dei a mão. Seus dedos tremeram ao tocar os meus. Assim que estava em pé novamente, ele soltou minha mão.

Ele viu o lado violento da minha função, o lado que nunca pude mostrar a Hakim. Eu não pude evitar. A mulher de coração mole que eu fora não existia mais, e agora só restava uma escuridão fria e cheia de cinzas.

“Os testes”, disse ele batendo o queixo com outro tipo de pavor. A realidade daquela noite estava se revelando à medida que ele percebia que não era um sonho. “O que eu devo mostrar aos artífices amanhã?”

“Você estudava com o seu tio?”

“Sim. Ele me ensinou tudo, mas os diagramas–”

O sobrinho de Hakim sabia quais eram suas opções. Ou vinha trabalhar para mim ou teria que desistir do trabalho de uma vida inteira. Eu, como agente de inteligência, não podia permitir que o conhecimento dele caísse nas mãos de outra casa. Em seu olhar assustando, eu vi morrer a inocência com que ele encarava o mundo. Eu era uma salvadora assassina e uma protetora sombria. Naquele momento de cruel compreensão, eu me tornara a Senhora Cinzenta dele, uma sombra de aço a ser temida e venerada.

“Você os entenderá melhor amanhã”, disse eu.

Incapaz de colocar todos os pensamentos em palavras, ele afirmou com a cabeça e saiu perambulando noite a dentro. Rezei para que ele recuperasse a razão antes do amanhecer. Caso contrário, ele não teria como fugir de mim.

Eu estava parada na sacada do escritório do meu irmão, observando. Uma brisa gelada balançou as bandeiras nos cantos do telhado da casa. Eu podia ver a cidade inteira diante de mim.

As portas do escritório se abriram e, por um instante, pude ouvir os preparativos para a chegada dos aprendizes amanhã. Em suas vozes e passos apressados, pude ouvir os anos que haviam ficado para trás, todos parecidos demais para serem diferenciados. Todos com exceção de dois: o ano em que um belo homem das Areias conquistou meu coração, e o ano em que eu exigi que esse mesmo homem o arrancasse de mim.

Quantas vezes Hakim entrara aqui comigo entre esses dois momentos? A brisa que balançava as bandeiras fazia seus cachos voarem quando ele ia até a sacada. “Tanto potencial”, dizia ele ao olhar distraidamente as torres brilhantes da cidade, com o brilho de Zaun subindo para iluminar os prédios “uma máquina tão delicada, tantas partes funcionando juntas.”

Eu lhe disse que meu pai me dissera, que essa era a promessa do Progresso, a promessa de Piltover. Era o que impulsionava nossa cidade para o futuro, porém, eu alertei, caso alguma engrenagem fosse mal colocada, tudo estaria em risco. Uma engrenagem que não cumprisse sua função poderia destruir a máquina por completo.

Ouvi os sons da cadeira de Stevan rolando sob o tapete. Meus dedos queriam sentir os cachos de Hakim ou, pelo menos, o conforto de ter o terço de vidro no meu bolso. Em vez disso, eu tinha o chicote de Aviet firmemente enrolado nas mãos. Hakim queria tanto me tirar desta escuridão, mas só percebeu tarde demais que o meu trabalho, meu dever com a minha família, era algo tão indissociável de mim quanto a minha própria sombra.

“Camille?”

Eu não respondi, incapaz de desviar os olhos daquela figura frágil e dos pensamentos ainda mais frágeis do meu passado. As engrenagens do mecanismo giraram e as rodas da cadeira de Stevan o trouxeram até mim.

“Você voltou”, disse ele. “E Aviet?”

Joguei o chicote de Aviet sobre a coberta de lã no seu colo.

“Entendo.”

“Ela cumpriu sua missão”, disse eu.

“E que missão foi essa?” Para quem tinha passado tanto tempo preso a uma cadeira, meu irmão se esquivava muito bem. Ele cutucou o arame do chicote.

“Me lembrar qual era a minha”, respondi.

“A sua missão?” O nervosismo inicial de Stevan virou agitação. Ele sabia que morreria esta noite. Ele fora pego e não tinha como fugir, não de mim. O seu único consolo era poder tentar me ferir da mesma maneira antes que o tempo se esgotasse. E, preso à sua fragilidade, tudo que lhe restava era lutar com palavras.

“O seu dever é me servir”, disse ele. “Como você antes servia ao nosso pai.”

Dever. Meu pai. As palavras certas cortam mais fundo do que navalhas.

“Você está aqui para me servir”, rosnou ele.

“Não. Eu jurei servir à esta casa.” Eu lembrava muito bem do juramento que havia feito, o juramento de todos os agentes de inteligência. E eu o repeti sem esforço ou remorso. “A esta casa, serei verdadeira e fiel, colocando suas necessidades antes das minhas. Para tanto, dedicarei mente, corpo e coração.”

Foram as mesmas palavras que eu dissera a Hakim na noite que terminei o que havia entre nós. Eu não poderia ser dele, pois havia me prometido a outro.

“O posto de agente de inteligência deveria ter sido meu.” A voz de Stevan me trouxe de volta ao presente. Ele agarrou os braços da cadeira até seus punhos ficarem pálidos. “Você jurou perante o nosso pai e o que foi que fez? Ele morreu porque você não foi forte o suficiente. E depois você quase desertou esta casa. E pelo quê? Por amor? Atenção? Onde estava o seu dever?”

Ele cuspiu as palavras no vão entre nós. Essas veias negras, essa praga, eu já havia deixado que se espalhassem por tempo demais. Como eu havia servido a esta casa ignorando as loucuras dele?

“Eu arranquei meu coração pela família. Por você, Stevan”, disse eu. “Dei tudo que eu era. E depois de todos esses anos, será que você é capaz de dizer o mesmo?”

Stevan gaguejou nervoso, tentando desesperadamente, mas sabendo que não havia mais o que fazer.

“Nosso pai simplesmente te deu isso, mas fui eu quem passou a vida inteira provando para ele que era eu quem merecia”, disse ele. Suas palavras estavam cheias de desgosto. A fúria do meu irmão não parava de crescer. A toxicidade poluía o ar como um vazamento de gás. “Você pode me ver como um traidor, mas a culpa é sua, minha irmã. Se eu pudesse confiar que você é capaz de tomar as decisões certas, não teria que interferir.”

Fui eu quem deixei que ele virasse esse monstro. Eu tolerei seus planos e motivações sombrias porque não queria encarar um futuro sem ele, um futuro no qual ninguém lembrava da mulher que eu fora. Se eu tivesse sido mais determinada, teria acabado com isso há anos. Eu mesma modelei alguns aspectos disso. E em todo esse tempo, nunca tive a coragem de eliminar o membro que contaminava nossa casa.

“Naquela noite, eu teria fugido com Hakim se você não tivesse tentado me lembrar do meu dever” disse eu.

Ele havia ido ao meu encontro, ensanguentado e ferido, forçando-me a encarar a realidade: eu abandonara aquele que devia proteger. Mesmo quando descobri a verdade, anos depois, que ele estava por trás do ataque a si mesmo, eu fiquei aliviada. Vendo que eu estava prestes a tomar uma decisão baseada em meus sentimentos, meu irmão me dera o empurrão que me faltava para separar a honra da emoção. Eu sabia que, sem aquilo, eu poderia ter desistido de ser quem eu deveria. Foi o seu incentivo obscuro que me permitiu assumir o manto que eu visto hoje.

Fui até ele e coloquei a mão em seus ombros. Pude sentir seus ossos frágeis por baixo da pele macia e enrugada. A vibração no meu peito aumentou. Stevam me olhou com seus olhos azuis endurecidos como lascas de vidro, e enquanto isso a energia crescia em volta do meu aprimoramento.

“Você sempre foi responsabilidade minha, meu irmão.” Minhas palavras foram inundadas pelo ar frio. “Stevan, eu nunca te decepcionarei novamente.”

Pude sentir uma descarga elétrica em minha nuca. Deixei minha mão subir do seu ombro para o seu rosto. O cacho de cabelo que caía sobre sua têmpora havia diminuído e desaparecido há anos. A faísca espalhou-se das pontas dos meus dedos e o envolveu.

Não demorou muito até seu coração não aguentar mais. Aquele músculo atrofiado que levara meu irmão a lugares tão obscuros finalmente havia parado. Seus olhos se fecharam e seu queixo repousou na minha mão.

A vibração dos cristais no meu peito diminuíram e se estabilizaram. Me virei para olhar a cidade novamente. O frio desta noite vai contrair suas estruturas metálicas mas amanhã ela voltará a avançar e a pulsar, mais viva do que nunca. Rumo ao progresso.

Que máquina tão delicada.

 


 

Fonte(s): League of Legends.

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